O distribuidor no Brasil dos cabos poloneses Audiomica, enviou-nos há 90 dias um set completo dos cabos tops desse fabricante para nossa avaliação e solicitou que se gostássemos, publicássemos um teste. Junto com os cabos, o Paulo Campos da Visom confidenciou-nos que no estúdio de gravação, mixagem e masterização da Visom no Rio de Janeiro, a introdução dos Audiomicas fez uma ‘revolução’ no sistema de monitoração do estúdio!Os cabos enviados para teste são todos da série Consequence (exceto o de força, da linha Reference), são eles: o cabo de caixa Miamen Consequence Speaker Cable, o cabo de força Callisto Ultra Reference Power, o cabo de interconexão RCA Pearl Consequence Interconnect e o cabo digital RCA Flint Consequence Digital. Sempre lembro a todos os importadores de cabos e acessórios, que o teste desses componentes é demorado, pois lembro a eles que preferimos errar por excesso de cautela, e não por falta.E acreditamos que para se passar uma ideia consistente das qualidades sonoras dos cabos é preciso escutá-los com o maior número possível de equipamentos e em ambientes acústicos e elétricos também distintos. Excepcionalmente conseguimos encurtar esse período de teste se os cabos vierem integralmente amaciados ou se os mesmos tiverem uma performance muito acima da média. Felizmente, os cabos enviados pela Audiomica já estavam inteiramente amaciados, e possuem qualidades muito consistentes.Quando falamos de cabos, podemos dividir os audiófilos em duas correntes: os que acreditam que cabos realmente soam diferentes e podem ser um upgrade importante no ajuste fino de um bom sistema, e os que acham que a diferença entre um cabo corretamente fabricado não ficará devendo nada em termos de performance a um cabo que pode chegar a custar um carro zero. Acho essa discussão uma perda de tempo, e jamais chegará a nenhum grau de convergência, pois não acho que nenhum dos grupos estejam interessados em avançar na discussão e aceitar que de ambos os lados existem exageros, distorções e falta de vontade de se colocar no lugar do outro e procurar entender como ele escuta (se escuta).
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CABOS AUDIOMICA – INTERCONEXÃO, DIGITAL, CAIXA E FORÇA
Fernando Andrette
Que podem existir diferenças entre cabos e que para uns essas diferenças são significativas o suficiente para justificar o investimento, e para outros essas diferenças (se existem), não justificam o tempo e o dinheiro investido. É a mesma coisa que discutir o valor de um carro, relógio, vinho, barco etc. Posso perfeitamente me deslocar da minha casa ao trabalho em um carro 1.000 cilindradas básico, e posso fazer o mesmo trajeto em um BMW. Qual me dará maior conforto e prazer em dirigir? Será correto dizer que todas as minhas impressões são apenas subjetivas?
No fundo, os equipamentos hi-end são bastante similares. O que esperamos deles? Para mim, um bom sistema hi-end é o que me permite ouvir minhas obras preferidas com o mayor grau de inteligibilidade e conforto auditivo! E como eu consigo isso? Essa é a questão. Para alguns, características como soundstage, dinâmica e corpo harmônico serão mais importantes; para outros, a textura e o equilíbrio tonal serão fundamentais. Mas, independentemente das razões de cada um escolher o seu sistema preferido (dentro do seu orçamento e gosto), todos desejamos dar às nossas gravações favoritas ‘um molho e um prazer adicional’. Ir além nessa eterna discussão se os cabos valem o que custam, será discutir ‘o sexo dos anjos’.
A Audiomica é um fabricante polonês de cabos com mais de uma década de existência. Como muitos dos fabricantes de cabos, tudo começou de forma artesanal, produzindo cabos para o seu próprio uso, depois para os amigos, que ouviram e gostaram da performance, depois para os amigos dos amigos, até a ideia se tornar uma realidade e ganhar o mundo. Nos últimos cinco anos, a Audiomica (graças a inúmeros testes muito positivos) passou a ser distribuída em toda a Europa, Ásia, América do Norte e agora no Brasil. Sua linha de cabos é bastante extensa, custando a partir de 300 euros, até seus cabos mais tops (linha Consequence), que estão na faixa de quatro mil euros. No site, os interessados conhecerão toda a filosofia da empresa, assim como uma descrição detalhada da construção dos cabos, tecnologia, patentes etc. Darei apenas uma pincelada nos pontos em que acho pertinente para dar a você leitor uma ideia de qual caminho a empresa trilhou, para chegar ao resultado desejado.
Como sempre digo, cada product tem a assinatura sônica do seu projetista (ou grupo de projetistas envolvidos), e é muito importante saber o que o projetista tinha em mente para chegar ao seu objetivo final. Duas coisas me chamaram de cara a atenção: primeiro, o leque de parceiros que a Audiomica possui (tanto de fabricantes / fornecedores de matéria-prima e de grupos de testes – compostos atualmente por mais de 30 audiófilos espalhados pelo mundo). Concordo quando eles afirmam ‘que teoria nem sempre anda de mãos dadas com a prática’, e que de todos os protótipos por eles desenvolvidos, apenas 20% conseguem não sofrer nenhuma alteração até serem lançados no mercado. Do protótipo inicial até todas as mudanças finais, o produto pode levar meses para ser lançado. Outra questão levantada pela Audiomica (que assino embaixo) é que todos os cabos devem passar pela maior quantidade possível de salas e sistemas antes de serem produzidos em série.
Os cabos Audiomica utilizam prata e cobre, ou só cobre nos cabos mais de entrada. Os cobres utilizados (em todas as linhas) são o OCC-N6 e N7. O processo OCC foi desenvolvido pelo professor Ohno Chiba em 1986, no Instituto de Tecnologia do Japão, e consiste em um menor número de cristais em cada condutor. No processo de cobre OCC, cada fio de cobre (com mais de 100 metros de comprimento) é puxado lentamente para fora do metal derretido. Descobriu-se que esse processo de puxar o fio mais lentamente eleva o grau de pureza do cobre e permite a obtenção de cristais únicos. O N6 e N7 representam o grau de pureza do cobre que equivale a 99,9997 e 99,99997%. Pelo custo, o N7 é utilizado apenas na linha Consequence; já as outras linhas utilizam o N6. Depois da preparação dos fios de cobre, os cabos da Audiomica recebem a prata através do processo de galvanoplastia, batizado de DCP (Duplo Processo de Revestimento). Esse processo de galvanoplastia cria uma liga de prata e cobre, e essa liga irá produzir dois fios que formam um fio condutor.
Outro processo descrito detalhadamente pela Audiomica em seu site é o processo de dielétricos e isolamento dos seus cabos. Como outros fabricantes de cabos concorrentes, a Audiomica usa o Teflon extrudado como isolante. O FEP foi inventado e patenteado pela empresa Dupon em 1960. Trata-se de um copolímero de etileno fluorado conhecido como TPFE (Teflon). Este polímero possui uma elevada rigidez e resistência e é perfeito para o isolamento de cabos e fios. Outro lugar onde a Audiomica utiliza o duplo processo de revestimento (DCP) e a tecnologia de aplicação de um revestimento galvanizado é nos plugues. Patenteada por esse fabricante, ele afirma que 90% dos plugues e tomadas existentes no mercado são notórios por seu revestimento de má qualidade, sendo que se dá muito mais importância à espessura do material do que a área do revestimento que entra em contato elétrico. E, segundo o fabricante, isso não é nenhum ‘capricho’ audiófilo, e sim uma questão de física.
A tecnologia DCP é um revestimento homogêneo que vai de 2 a 20 mícrons (as normas europeias atuais são 3 mícrons), e a superfície galvanizada dos melhores plugues chineses vai de 1 a 2 mícrons (os melhores, pois a média em geral para baratear custos e ser competitivo no mercado não passa de 0,5 mícrons). Após o processo de galvanoplastia, a superfície é limpa, medida e enviada para o segundo banho. Ainda que esse processo seja trabalhoso e caro, a Audiomica garante que somente essa maneira faz a superfície adquirida ficar perfeita e passar por todos os testes de parâmetros elétricos e mecânicos, sendo incomparavelmente melhor do que nos processos convencionais de revestimentos galvanizados. Já o sistema CTB, segundo o fabricante, foi concebido para a linha de cabos mais avançada. No sistema CTB, as telas que dão o acabamento ao cabo são aplicadas com tranças multifios, trançadas ao contrário. E a espessura de cada fio da trança, ao seu número e forma de combinar as camadas, foi patenteado pelo fabricante. Segundo a Audiomica, o resultado é um campo magnético zero, ou muito próximo de zero.
Todas as soldas da Audiomica utilizam a Mica, por ter propriedades antivibração e pela sua consistência extremamente líquida, que preenche todas as microfendas que protegem a superfície da solda. Após seu endurecimento, ela mostra excelente resistência mecânica, térmica e química, sendo também à prova d’água. Outra interessante propriedade da Mica é que ela remove o calor emitido pela corrente, aumentando a vida útil da solda. E como se trata de um material eletricamente neutro, não afeta a qualidade do sinal transmitido. Os cabos da Audiomica não possuem direcionalidade, e o fabricante incentiva o consumidor a escutar e decidir qual a direção que lhe parece melhor no seu sistema. Ele apenas faz uma ressalva que, depois de amaciado (cerca de 100 a 300 horas, dependendo da linha), o ideal é que definida a direcionalidade, esta seja marcada para facilitar sua reinstalação.
A Visom Digital, como já os havia amaciados, colocou uma seta indicando como deveria instalar. Os cabos foram utilizados em diversos sistemas, mas no último mês de avaliação os restringi por questões de tempo e coerência aos seguintes equipamentos: o digital Flint, entre o transporte e o DAC Scarlatti da dCS, o cabo de força Callisto nos prés Dan D’Agostino e P30 da Hegel, o cabo de caixa Miamen nas caixas Evolution MM3, Kharma Exquisite Midi, Q Acoustics Concept 20, Tannoy Glenair 10 e Gauder Akustik Arcona 60, o cabo de interconexão Pearl entre o pré de phono Tom Evans Groove + e Dan D’Agostino, e entre o DAC Scarlatti dCS e o Dan D’Agostino.
Do set de cabos enviados, o que de longe mais me surpreendeu (principalmente quando ligado com o meu set de cabos de referência) foi o digital Flint Consequence. Suas qualidades sonoras são absurdas para a sua faixa de preço, ainda que comparado ao meu cabo digital, que custa muitas vezes mais. Seu silêncio de fundo e sua apresentação de microdinâmica é excepcional. Ouvindo o CD Concerto para Piano e Orquestra de Rachmaninoff com a pianista Martha Argerich e a Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim, com regência de Riccardo Chailly, gravado ao vivo, é notório como o Flint apresenta os crescendos do naipe de cordas no segundo e terceiro movimentos, e a delicadeza nos pianíssimos da solista e da orquestra. O mesmo ocorreu no belo CD do bandolinista Hamilton de Holanda e do pianista André Mehmari, Gismonti Paschoal. Na faixa 4, Frevo de Egberto, a dinâmica é um componente importante para se entender a intencionalidade e a cumplicidade de como eles alternam o tema com os solos. É uma aula de virtuosidade sem excessos, de uma beleza e bom gosto comovente. A mesma sensação tive ao escutar a faixa 5 desse mesmo disco, em que a microdinâmica é ainda mais presente, principalmente nos solos de ambos os instrumentistas.
O Flint nos abre uma enorme janela, em que podemos apreciar tudo em detalhes. Quando escutamos o set completo, temos um ótimo equilíbrio tonal, com uma apresentação sempre muito correta de todos os timbres e instrumentos, e com uma característica que muito me agrada: condescendência com gravações tecnicamente sofríveis. Os cabos da Audiomica testados primam por não jogar luz adicional ou qualquer tipo de coloração nas baixas e médias frequências. São extremamente corretos e precisos, tanto em termos de naturalidade como no grau de musicalidade. São cabos que em um sistema correto, encantam imediatamente, por não quererem reinventar ou dar um toque especial. Gostei muito do equilíbrio entre transparência e musicalidade. Nesse aspecto eles são sem dúvida alguma cabos diferenciados. Você escuta absolutamente todos os detalhes, mas o grau de conforto auditivo e de naturalidade nunca é jogado para segundo plano. Como sempre escrevo, esse equilíbrio separa o cabo com qualidades do Estado da Arte! Sua apresentação parece estar sempre no limite do preciso e do correto. E no meu modo de ver, isso se torna extremamente salutar, pois nos permite relaxar para apreciar a música sem, no entanto, retirar nossa atenção da mesma.
Claro que essas características precisam ser muito bem casadas com a eletrônica, para que o som não se torne letárgico, pois esses Audiomicas apontam em direção oposta. Eles propõem ao ouvinte uma apresentação precisa, mas com um toque de envolvimento emocional maior. Vou dar outro exemplo: a famosa faixa 10 do Wynton Marsalis Septet, The Village Vanguard. Muitos dos nossos leitores escrevem dizendo que nos seus sistemas nessa faixa (quando não todo o disco) os metais soam duros e agressivos. Concordo, e já escrevi a respeito que esse disco está no limite do conforto / desconforto auditivo, por isso é um excelente exemplo para o ajuste e avaliação de equilíbrio tonal, timbre e texturas. E todo o sistema precisa estar sinérgico e coerente para sua audição se tornar um deleite. E quando isso ocorre, descobrimos uma apresentação memorável, em que toda a banda estava inspirada naquela noite. Com o set de cabos Audiomica, o conforto foi pleno, mesmo no solo do Wynton na faixa 10, em que ele utiliza o tempo todo a surdina. E o mais importante: sem perda de ambiência ou menor extensão nos agudos (esse truque sujo não vale para os sistemas e cabos de alto nível).
CONCLUSÃO
Fiquei extremamente encantado com a sonoridade dos cabos Audiomica da linha Consequence. E mais ainda com seu alto grau de compatibilidade com os diversos sistemas utilizados. O cabo de força se mostrou menos compatível com cabos de força de outras marcas. Por isso não posso falar muito a seu respeito, pois talvez ele se sinta mais à vontade com seus pares (mas para isso precisaria de pelo menos mais dois cabos de força, o que não seria possível com tão pouco tempo para o teste). Mas quando colocado nos prés de linha, foi possível perceber que ele vai na mesma direção em termos de assinatura sônica e equilíbrio entre transparência e musicalidade. Em relação aos cabos de interconexão e de caixa, suas virtudes são evidentes e possuem a qualidade de se mostrarem extremamente à vontade com cabos de outras marcas (principalmente o de caixa).
Um detalhe chamou muito minha atenção no cabo de caixa. Duas das caixas citadas nesse teste estavam no final do amaciamento (Tannoy e Gauder), e com qualquer outro cabo de caixa ligado a elas, o conforto auditivo ainda não era pleno. Com o Audiomica, parecia mágica! Tudo ficava mais confortável, como se as caixas já estivessem totalmente amaciadas! Já o cabo de interconexão Pearl se mostrou mais à vontade quando ligado entre o DAC da dCS e o pré de linha, que entre o pré de phono e o de linha. Talvez seja uma questão de casamento com o cabo de braço do toca-discos ou com o resto do cabeamento, mas nada que comprometa em termos gerais. Acredito que a Audiomica, assim como na Europa e América do Norte, fará sucesso por aqui. Será importante a Visom trazer também alguns modelos das linhas intermediárias, para poder atender ao segmento mais de entrada (pois o dólar a esse preço é um nó difícil de desatar). Para aqueles que possuem um sistema Estado da Arte bem ajustado e que continuam ‘brigando’ para achar o ponto de equilíbrio entre conforto auditivo, transparência e musicalidade extrema, eu indico entusiasticamente uma audição da linha Consequence. E para os que estão buscando um cabo digital de inquestionável qualidade, indico uma audição criteriosa do Flint. É um cabo digital simplesmente excepcional.
